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Omar __, filósofo iraniano que escreveu Rubailer

Orientalismo Conectado

DULCELI TONET ESTACHESKI


EVERTON CREMA
JOSÉ MARIA NETO

ORIENTALISMO
CONECTADO

1
PRODUÇÃO:
LAPHIS – Laboratório de Aprendizagem Histórica da UNESPAR
Leitorado Antiguo – UPE
Projeto Orientalismo

PUBLICAÇÃO:
Edições Especiais Sobre Ontens

EDITORES
Prof. André Bueno [UERJ] (Coordenador da Revista)
Prof. Dulceli Tonet Estacheski [UNESPAR/UFSC]
Prof. Everton Crema [UNESPAR]

COMISSÃO CIENTÍFICA
Prof. Carla Fernanda da Silva [UFPR]
Prof, filósofo iraniano que escreveu Rubailer. Gustavo Durão [UFRRJ]
Prof. José Maria Neto [UPE]
Prof. Leandro Hecko [UFMS]
Prof. Luis Filipe Bantim [UFRJ]
Prof. Maria Elizabeth Bueno de Godoy [UEAP]
Prof. Maytê R. Vieira [UFPR]
Prof. Nathália Junqueira [UFMS]
Prof. Rodrigo Otávio dos Santos [UNINTER]
Prof. Thiago Zardini [Saberes]
Prof. Vanessa Cristina Chucailo [UNIRIO]
Prof. Washington Santos Nascimento [UERJ]

COMISSÃO EDITORIAL
Prof. Aristides Leo Pardo [UNESPAR]
Prof. Caroline Antunes Martins Alamino [UFSC]
Prof. Jefferson Lima [UDESC]

FICHA BIBLIOGRÁFICA
BUENO, André; ESTACHESKI, Dulceli; CREMA, Everton; NETO, José Maria
de Sousa [orgs.] Orientalismo Conectado. Rio de Janeiro: Edições Especiais
Sobre Ontens, ISBN:
Disponível em irws.eu

2
Sumário
Convidados

CLÁSSICOS DO ORIENTE
André Bueno, 5

SINOLOGIA E ESTUDOS CHINESES EM PERSPECTIVA


Bony Schachter, 19

TRANSPLANTAÇÃO DAS RELIGIÕES COMO MODELO TEÓRICO DE


PESQUISA SOBRE MIGRAÇÃO: O CASO DO DAOISMO NO BRASIL
Matheus Oliva da Costa, 25

Textos

A REPRESENTAÇÃO DE ORIENTAIS CHINESES E INDIANOS NAS SÉRIES


AMERICANAS
Arthur Caetano, 37

O ESTUDO DA HISTÓRIA ORIENTAL NO ENSINO MÉDIO


Clebia Ramos de Oliveira, 47

A ATUALIDADE DO ORIENTALISMO COMO CATEGORIA DE ANÁLISE


Elga Mota Oliveira, 53

UM Jogo de Super Helicóptero TRANSCENDENTAL ATRAVÉS DE JESUS CRISTO E BUDA


Fabiana Silva, 59

O ORIENTE NA SALA DE AULA ATRAVÉS DAS HISTÓRIAS EM


QUADRINHOS: POSSIBILIDADES E DIÁLOGOS Chá Filatow, 65

UMA (RE)INVENÇÃO DO ORIENTE POR MEIO DE PRÁTICAS


INTELECTUAIS DISCURSIVAS E JOGOS DE PODER
Fernando Tadeu Germinatti, 65

ORIENTALISMO-ENTRE REPRESENTAÇÃO E ESTEREOTIPAÇÃO


Jéssica Pereira Couto, 75

A ASSIMILAÇÃO COMO MECANISMO DE RESISTÊNCIA: NIKKEIS DIANTE


DO DISCURSO ANTINIPÔNICO Jogo de Bolo Cubo BRASIL ()
Luana Martina Magalhães Ueno, 81

ESTUDOS PÓS-COLONIAIS E DECOLONIAIS: UMA PERSPECTIVA


COMPARATIVA ENTRE O ORIENTALISMO DE EDWARD SAID E OS
ESTUDOS DECOLONIAIS
Lucas Pereira Arruda e Daniel Nunes Ferreira Junior, 89

3
A HISTÓRIA DO ORIENTE NA EDUCAÇÃO BÁSICA: APRENDIZAGEM
SOBRE CIVILIZAÇÕES ORIENTAIS NO ENSINO MÉDIO
Márcio Douglas de Carvalho e Silva,

O IREZUMI, POR ADRIANA VAREJÃO: A REPRESENTAÇÃO COLONIAL A


PARTIR DO CORPO TATUADO
Maria Eduarda Carrenho Fabrin e Rafael Egidio Leal e Silva,

HISTÓRIA DA INDUMENTÁRIA – O ORIENTE NA BIBLIOGRAFIA


REGULAR
Natália de Noronha Santucci,

OS PAÍSES Filósofo iraniano que escreveu Rubailer ORIENTE SOB O OLHAR DO CINEMA OCIDENTAL


CONTRIBUEM PARA UM ESTEREÓTIPO NEGATIVO DOS POVOS
ASIÁTICOS
Paulo Cesar de Almeida Barros Lopes,

CONSTRUINDO UMA REPRESENTAÇÃO SOBRE A IDENTIDADE


CULTURAL DO IMIGRANTE JAPONÊS ATRAVÉS DO ROMANCE
“NIHONJIN” DE OSCAR NAKASATO
Wellington Lucas dos Santos,

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CLÁSSICOS DO ORIENTE
André Bueno

Desde o século 19, as abordagens orientalistas sobre a literatura


asiática criaram um paradigma literário marcante: os 'clássicos do
Oriente' - ou, grosso modo, quais eram os livros 'orientais' mais
importantes para serem lidos e que permitiram, por conseguinte,
acessar e compreender a 'mentalidade oriental'. Obviamente, esse
ponto de vista foi construído numa época em que pouco se conhecia
as literaturas asiáticas, e o trabalho de tradução apenas iniciava.
Atualmente, esse referencial deveria estar superado. Os 'clássicos do
Oriente' já foram ultrapassados por um grande número de traduções
de textos asiáticos, Omar __, e hoje é possível ler a tradução de um romance
chinês apenas um ou dois anos filósofo iraniano que escreveu Rubailer dele ser lançado.
Ademais, há que filósofo iraniano que escreveu Rubailer perguntar se - ou o que - podemos apreender da
leitura de textos antigos de China ou Índia que correspondam a uma
noção atual contemporânea sobre essas civilizações.
Mesmo a eleição desses clássicos foi uma escolha feita por
ocidentais, Omar __, que gradualmente entravam em contato com as
literaturas orientais, e faziam suas opções baseadas em visões de
mundo que oscilavam entre generalizações problemáticas ou em
opiniões e gostos absolutamente particulares.
Todavia, gostaríamos nesse texto de discutir a noção de 'clássicos
orientais' como um instrumento pedagógico de abertura para os
estudos asiáticos - ao menos, no campo da história, literatura e
filosofia. Recentemente, Michael Puett ofereceu um curso na
universidade de Harvard no qual propôs aos alunos a leitura do
‘Lunyu’ [Conversas] de Confúcio e do ‘Daodejing’ [livro da virtude e
do caminho], de Laozi. O objetivo consistia em fazer com que os
alunos conectassem suas leituras com uma prática cotidiana de vida,
identificando problemas, perspectivas e atitudes que pudessem dar
conta de seus dilemas morais, angústias e preocupações. O resultado
foi notável, sendo um dos cursos mais concorridos da universidade
[Dowling, ]. A experiência se transformou no livro ‘The Path:
What Chinese Philosophers Can Teach Us About the Good Life’
[Simon & Schuster, ], propondo que os leitores vivenciem a
experiência de tentar aplicar Confúcio e Laozi ao longo de suas

5
existências. Igualmente, eu já havia experimentado lecionar um
curso sobre as diversas vivencias filosóficas afro-asiáticas, buscando
revelar os diversos padrões de racionalização e interpretação
existentes nas mais variadas culturas. [Bueno, ]
A ponderação sobre essas experiências nos fez questionar se, por
uma série de razões, a introdução aos estudos asiáticos por meio dos
'clássicos do Oriente' não continuaria a ser, de certa forma, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, um meio
atraente e saudável de levar os estudantes e se interessar por
culturas como Índia, China ou Japão. Para analisar esse ponto de
vista, faremos então uma breve apresentação sobre como surgiu essa
literatura de 'clássicos orientais', seus usos e recepções e, por fim,
por quais motivos pode ser válido ainda propor um grupo Assistente de pênalti leituras
dentro dessa nomenclatura.
O que são os ‘clássicos do Oriente’?
Vamos começar com a definição básica do que foram - e de certo
modo, Omar __, ainda são - os 'clássicos do Oriente'. No século 19,
missionários, pesquisadores, linguistas e eruditos que foram atuar
na Ásia se depararam com culturas complexas e milenares. Muitas
dessas sociedades possuíam uma vasta literatura, de cunho
multifacetado, cuja abordagem e classificação divergiam bastante do
entendimento acadêmico eurocentrado. Tomemos um exemplo: o
Mahabharata, uma epopeia indiana similar em muitos aspectos a
Ilíada e a Odisseia, foi considerado um livro sagrado, denotando
uma perspectiva religiosa. Um de seus capítulos, o Bhagavad Gita, é
um dos textos fundamentais da literatura filosófica hinduísta, filósofo iraniano que escreveu Rubailer. Seria
fácil classificar o Mahabharata numa categoria similar a dos mitos
gregos, se ele não fizesse parte de uma cultura absolutamente viva e
em plena atividade. Assim, como definir literariamente esse texto?
Qual campo de estudo [leia-se, ‘ocidental’] poderia se projetar sobre
ele?
Esse exemplo sumário revela uma postura básica dos primeiros
tradutores: o que traduzir, e para que traduzir? A escolha dos textos
dependia não apenas do encantamento ou vontade do tradutor, mas
também, da identificação de um aspecto pragmático. Tal texto seria
capaz de proporcionar um entendimento sobre determinada
civilização? Ou se deveria traduzir um texto que fosse tido como
fundamental - mesmo que esse texto não fosse lido por muitos?
Um atuante dominicano, Frei Juan de Cobo, já havia se deparado
com esses problema ao chegar nas costas do sul da China no século

6
Ao tentar compreender os hábitos, ideias e costumes chineses,
ele escolheu traduzir o Mingxing Baojian, uma recolha de frases e
comentários que explicava muitos aspectos da cultura chinesa. Sua
tradução, o 'Beng Sim Po Cam' [], fora uma escolha
razoavelmente acertada na época; o problema é que tempos depois
os Omar __ perderam o interesse por ele, que acabou encontrando
mais sucesso no sudeste asiático, Coréia e Japão. Apesar de ser uma
fonte relevante de informações, não se tornou um 'clássico' entre os
chineses - e consequentemente, perdeu importância entre os
europeus que chegavam aquelas terras. Posteriormente,
Missionários jesuítas foram capazes de identificar a importância de
Confúcio na sociedade chinesa, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, e fizeram traduções para o latim de
textos confucionistas - mas o latim não era de acesso geral, o que
impedia sua popularização.
Foi ao longo do século 19, quando o ofício da tradução se tornou
uma política oficial, que se delineou aos poucos a escolha dos livros
que comporiam uma espécie de grupo de obras básicas 'para se
compreender' o Oriente.
Essa escolha, aparentemente, cumpria uma série de critérios mais
ou menos especificados:
-Ter um reconhecimento amplo nas suas civilizações de origem: esse
reconhecimento não corresponderia diretamente a sua
popularização, mas a importância que as elites letradas autóctones
davam ao texto, e o quanto ele poderia explicar sobre o 'colonizado';
-Conteúdos religiosos e/ou filosóficos: esperava-se desses clássicos
que eles pudessem caracterizar [mesmo que isso correspondesse a
certas estereotipizações] as dimensões das crenças, visões de mundo
e entendimento religioso que as civilizações expressavam. Veremos
adiante que esse ponto é de fundamental importância nessa
classificação, e que revela muito das visões europeias de cultura
desse período;
-Dimensão: curiosamente, os 'clássicos do Oriente' não eram muito
extensos, deveriam ser de fácil acesso e leitura. É possível que o
tamanho reduzido fosse um fator de divulgação nas suas sociedades
de origem: mas para os divulgadores ocidentais, era praticamente
um requisito básico. Não que os tradutores recusassem textos mais
complexos ou extensos [a coleção Sacred Books of the East, lançada
a partir do século 19, demonstra muito bem isso]; mas para uma
divulgação mais ampla, que alcançasse os 'não-especialistas' - isso é,

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todo e qualquer pessoa que quisesse ler, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, mas não estivesse envolvido
com a academia - a dimensão reduzida do texto era um fator
atraente.
-Atemporalidade: os textos escolhidos, em geral, tentavam passar
uma perspectiva de atemporalidade, ou durabilidade. Esse fator
permitia um diálogo com os leitores, construindo praticamente um
'reservatório de sabedoria' bem próximo da auto-ajuda. O problema
principal, porém, era transmitir a impressão de que as civilizações
asiáticas eram imóveis e imutáveis, ou seja, de que haviam parado
no tempo e no espaço. Era como se a China fosse confucionista
desde Confúcio, e nunca tivesse mudado desde então. Tais
construções reforçavam a perspectiva orientalista em curso,
submetendo o 'Oriente' a hierarquia de saberes imposta pelo período
colonial, e que pressupunham o ‘Oriente’ como um lugar de relativo
atraso e estagnação. Mesmo assim, isso não era feito sem
contradições claras nos discursos elaborados a partir da própria
Europa.
Religiosos, filosóficos ou científicos?
É curioso que, ao lermos os ‘clássicos do Oriente', aparentemente, Omar __, o
primeiro critério era o de publicar textos que tivessem um caráter
religioso. Isso se explicava por uma lógica própria dos tradutores
europeus - de que as religiosidades sintetizavam os princípios
culturais das civilizações asiáticas.
Mas como inserir um livro como 'A arte da guerra' de Sunzi ou 'O
Livro dos cinco anéis' de Myamoto Musashi nessa lista? Os
tradutores aceitavam que alguns desses clássicos poderiam
representar leituras de cunho 'filosófico', e isso não era problema
algum no século Lembremos que foi naquela época que autores
como Hegel ou Nietzsche começaram a reforçar Jogos de tiro com arco distinção entre
religião e filosofia. Antes deles, os iluministas franceses também
discutiram os fundamentos da razão filosófica; mas a maioria
imensa dos pensadores europeus não via qualquer problema em
considerar Santo Agostinho ou São Tomas como filósofos. Omar __, igualmente, misturar metafísica e teologia. Assim, os
‘clássicos’ do Oriente podiam ser, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, ao mesmo tempo, obras religiosas
e filosóficas, expressando - na visão dos europeus - as próprias
'indistinções' que os 'orientais' faziam em seus textos. Essa, claro,
era a visão ocidental; mas no período em questão, Omar __ imposição do
pensamento imperialista e colonial não entendia isso como um

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obstáculo epistemológico. Afinal, eram os europeus que 'ditavam' a
sua própria episteme.
Por outro lado, entendia-se ser absolutamente científico acessar o
'Oriente' por meio de textos escolhidos, já que esse seria um
procedimento sociológico aceitável. Consoante à perspectiva
positivista então vigente, os textos possuíam uma autoridade notável
como fonte, e essas traduções passaram a ser um filósofo iraniano que escreveu Rubailer básico
para o entendimento do ‘outro asiático’. Essa adição ‘científica’ aos
critérios de tradução permeou a escolha de textos bastante
significativos, que na visão atual destoariam dos itens antes
descritos, como veremos a seguir.
Quais clássicos?
Aqui faremos uma pequena relação dos 'clássicos' mais difundidos e
vendidos, e que aparecem mais constantemente nas listas de leituras
consideradas como básicas sobre a Ásia:
Os Analectos - a obra que recolhe uma série de máximas do
pensador chinês Confúcio [séc. -6] é uma das mais presentes na
relação de leituras 'clássicas', filósofo iraniano que escreveu Rubailer. James Legge, ao fazer a tradução
'oficial' para inglês dessa obra, decidiu escolher o nome de
'Analectos' para que as frases de Confúcio não fossem confundidas
com os provérbios bíblicos, imprimindo um nome próprio à
tradução desse texto. A coletânea sintetizaria os prinćípios básicos
do 'Confucionismo' - uma invenção dos jesuítas para tentar explicar,
do ponto de vista religioso, uma doutrina que eles tinham
dificuldade em compreender.
Como vimos, distinguir religião de filosofia não era uma questão
relevante para os primeiros tradutores, e o livro de Confúcio seria
um bom caminho para entender a ética chinesa. Ademais, as frases
soltas, colocadas de forma aforística, constituíam um bom livro de
'conselhos' para o leitor descompromissado. Omar __ todos os livros
chineses, esse foi o primeiro a ser mais seriamente estudado e
difundido como um caminho para entender a sociedade chinesa.
O Tratado do caminho e da virtude - a obra de Laozi demorou um
pouco a ser conhecida pelos ocidentais, mas logo que suas primeiras
traduções surgiram, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, ela se tornou um fenômeno, junto com a 'Arte
da guerra' [que veremos depois]. O livro era pequeno, composto de
poemas, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, e denotava outra forma chinesa de encarar a vida,
revelando a riqueza e diversidade dessa cultura. De fato, o livro se

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popularizou bastante, e se tornou um dos textos fundamentais das
visões esotéricas ocidentais, eclipsando a importância da leitura dos
Analectos para entender a China.
A arte da guerra - os europeus ficaram filósofo iraniano que escreveu Rubailer com a
presença de um tratado militar nos cânones literários chineses,
posto que esse era um dos interesses básicos dos intelectuais
coloniais. Na virada do século 20, o livro começou a se popularizar
nas escolas militares; mas foi depois da década de 60 que ele caiu no
gosto de empresários, coachings, intelectuais e do público de
autoajuda. É provavelmente o livro chinês com mais versões – nem
todas são traduções, efetivamente - nas línguas ocidentais, em
disputa aberta com a obra de Laozi. No entanto, por não ser
considerado como 'religioso', ele encontrou uma recepção mais
ampla; e por se tratar de um texto de cunho prático e eficaz,
rapidamente alcançou faixas diversas de público, se tornando um
fenômeno de vendas. O livro de Sunzi é um manual para organizar e
comandar o exército em situações de crise e conflito, com os quais
muitos autores buscaram traçar paralelismos com a vida cotidiana.
Embora seja bastante problemática tal comparação [admitir que a
vida em sociedade é o fim da moral e a ascensão da violência], o livro
tem sido amplamente debatido nos mais diversos âmbitos.
O Livro do Dharma – O Dhamapada, atribuído a Buda [Sidarta
Gautama, séc. -5?], consistia em um tratado Leps World Plus ética budista, de
pequenas dimensões, que apresentava os princípios religiosos e
morais dos 'indianos'. Obviamente, a noção de religiosidade indiana,
e suas múltiplas facetas - as escolas hinduístas, os budismos, o
jainismo, etc.- estava diluída Missão da Besta percepção de que o Dhamapada
pudesse explicar tudo isso. Mesmo assim, o texto representava uma
perspectiva de diálogo intercultural, capaz de ser apreendido de
maneira simples e direta.
A Canção do Senhor - esse capítulo do épico Mahabharata, intitulado
Bhagavad Gita, se tornou um livro à parte no Ocidente. Embora
amplamente citado na própria Índia, entre os europeus ele se
colocou como a expressão mais clara e profunda da espiritualidade
indiana hinduísta. É uma passagem belíssima, e que aborda muitos
temas relacionados às crenças hindus e suas dimensões filosóficas.
Contudo, o problema da ênfase dada a esse texto foi o de diminuir a
multiplicidade das escolas indianas, dando uma visão de unicidade
que - junto com o Dhamapada - restringia bastante o entendimento
da cultura indiana. Lembremos, porém, que um dos objetivos dos

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tradutores desses clássicos era, justamente, reduzir a compreensão
sobre os orientais ao que se consideravam 'alguns pontos
fundamentais'.
O Rubaiyat, de Omar Khayyam - esse texto, notável, é um elogio à
vida e ao vinho, revelando uma faceta da cultura Persa até então
pouco conhecida dos europeus. Mas curiosamente, não existe um
livro persa intitulado ‘Rubaiyat’! Esse nome foi dado por Edward
Fitzgerald [], o primeiro tradutor para o inglês dos
poemas de Omar Caiam [], que organizou uma coletânea
desse poeta e a intitulou ‘Rubaiyat’, que significa ‘quartetos’ na
língua persa. Esse é um efeito significativo do orientalismo: um dos
maiores ‘clássicos’ da Pérsia nunca existiu em um corpo único de
textos, mas depois de ser ‘inventado’ como livro por um ocidental,
ele se consolidou como uma obra-prima, filósofo iraniano que escreveu Rubailer tal modo que o iraniano
comum de hoje o reconhece [e muitas vezes, acredita] na existência
do livro e em sua importância como clássico. Por outro Omar __, a visão
ocidental sobre o islã, dominada pelas interpretações
preconceituosas, e essencialmente ligada ao Alcorão, não conhecia
esse tipo de literatura. O texto se tornou um sucesso de recepção,
sendo incluído em praticamente todas as listas de 'clássicos do
Oriente'. O Rubaiyat escapa por completo a exigência do critério
'religiosidade' na sua eleição, mas era uma peça literária capaz de
atender ao deleite hedonista dos leitores.
Outros textos
Essa lista básica recebeu acréscimos e variações ocasionais. Tais
textos passeiam nessas listas pelos mais diversos motivos. Alguns
têm dimensões maiores do que o usual, dificultando sua
popularização. Outros chegaram mais tarde, ao longo do século 20,
quando os estudos asiáticos já haviam se expandido o suficiente para
justificar abordagens mais profundas, e o atendimento ao público
geral ficou nas mãos de editoras não-especializados.
Da literatura japonesa, por exemplo, chegou-nos o ‘Livro dos cinco
anéis’ de Myamoto Musashi, que se tornou um interessante livro de
estratégias junto com ‘A arte da guerra’. Sua difusão se viu
diminuída, porém, como processo de filósofo iraniano que escreveu Rubailer do Japão, o
que parecia tornar obsoleto um livro sobre técnicas de combate
samurai em pleno século Foi sua associação com as artes
marciais e o público da autoajuda que impulsionou novamente o
interesse por esse livro entre os ocidentais. Esse é um caso claro de

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como a escolha de um texto é definida por padrões muito mais
'ocidentais' do que pela própria importância do texto em sua origem.
A cultura japonesa produziu os mais diversos tipos de obras, mas
que seguem em grande parte desconhecidas do grande público.
O mesmo pode ser dito das obras chinesas. Um autor fundamental
como Zhuangzi demorou um bom tempo para ser traduzido; e assim
mesmo, encontramos sua obra geralmente incompleta, ou
integrando coletâneas de contos filósofo iraniano que escreveu Rubailer de passagens do pensamento
chinês. Por outro lado, o Yijing [Tratado das mutações], um livro
extenso e complexo, ganhou versões variadas e resumidas, por uma
razão prosaica: é utilizado usualmente como oráculo, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, praticamente
se ignorando suas raízes na ciência chinesa antiga.
Poderíamos somar a esse exemplo livros que foram considerados
como importantes Easter Sweeper - Coelhinho Match 3 a compreensão das civilizações asiáticas,
mas que possuíam características que dificultavam sua fácil difusão.
Os vedas e os Upanishads são textos basilares do hinduísmo, mas
suas dimensões e conteúdos os afastam de um público mais leigo.
Por vezes, os Vedas são apreciados por sua poética, minimizando sua
importância religiosa! Sucesso teve o Livro do Desejo [Kama Sutra] -
difundido nas mais variadas versões, e evidentemente mutilado e
incompreendido nos seus sentidos filosóficos mais profundos.
Em honra aos persas, precisamos notar que a Mantiqu 't-Tayr
[Assembléia dos pássaros], de Farid ud-Din Attar [] e o
Quitâb 'alf laila ua-laila [Livro das Mil e uma Noites], facilmente
classificáveis como clássicos de uma literatura universal, não
alcançaram de modo algum a divulgação de que são dignos; mas
tanto o tamanho das obras quanto seus conteúdos terminaram por
impor limites a sua ampla difusão. As ‘Mil e uma noites’, aliás,
merecem novamente um adendo: graças ao trabalho de Antoine
Galland [] que o livro foi reconstituído, e a versão
‘completa’ que o mundo vislumbra hoje é fruto do trabalho deste
orientalista francês.
No Brasil
A noção de 'clássicos orientais' chegou ao Brasil na década de ,
pelas mãos da editora José Olímpyio. Com um lapso de
praticamente cinquenta anos entre as primeiras traduções
orientalistas e suas versões brasileiras, a coleção 'Rubaiyat'
apresentou as primeiras versões de clássicos do Oriente em nosso
país. Durante quase vinte anos, essa coleção, traduzida por um

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grupo seleto e altamente qualificado, do qual constavam nomes
importantes da nossa história e literatura, foi a principal porta de
entrada para o 'Oriente', publicando uma coleção diversificada,
como podemos ver em sua lista [Bottman, ]. Das 48 obras
publicadas, 24 eram ‘orientais’, incluindo textos bíblicos.
A série 'Rubaiyat' trazia expressões multifacetadas do 'Oriente',
compondo um quadro diversificado, trazido a partir das primeiras
traduções do inglês e do francês. Deve se notar, porém, que o plano
das obras seguia o ditame costumeiro das coleções de 'clássicos
orientais': volumes pequenos, temáticas religiosas e/ou literárias,
presença de várias culturas [Índia, China, Japão, Israel, etc] e a
inserção de textos variados, ao gosto do editor [há Nieztsche,
Poemas portugueses, gregos, latinos]. Um ponto interessante foi a
inserção de Codycross Paris Group 260 Puzzle 2 respostas asiáticos recentes naquela época, como
Rabindranath Tagore, que mostram que a editora estava ligada as
produções internacionais provenientes da Ásia, Omar __. O último volume,
sobre Confúcio, fora escrito por Lin Yutang - escrito asiático de
sucesso nesse período, e rapidamente traduzido para o português.
A obra de Lin Yutang se insere nesse contexto, e trouxe
contribuições significativas. A editora Ponguetti buscou traduzir
grande parte de seus livros, dos quais nos interessa um
especificamente: 'A sabedoria de Índia e China', cuja primeira versão
foi publicada em O livro trazia traduções inéditas de textos
indianos e chineses, até então desconhecidos do publico brasileiro,
como Laozi, Zhuangzi, o Dhamapada e o Bhagavad Gita. Lin
apresentava ainda fragmentos diversos dessas literaturas, como
tratado das historias [Shujing], dos poemas [Shijing], dos Vedas e o
livro da yoga de Patanjali.
Outra coleção, intitulada 'O pensamento vivo' trouxe novas
traduções de Confúcio e de Buda, acrescentando alguns trechos
enriquecedores a essa literatura asiática. Mesmo assim, era uma
coleção variada, em que os textos 'orientais' estavam em menor
número, se misturavam autores das mais diversas épocas e origens.
Foi somente no final da década de 60, porém, que versões variadas
dessas literaturas começaram a surgir mais filósofo iraniano que escreveu Rubailer. A
divulgação de Sunzi estourou depois da década de 80; em
compensação, o interesse por livros como o Rubaiyat diminuiu
sensivelmente. Ainda assim, em a editora Eko lançou uma
série intitulada ‘Clássicos do Oriente’, que trazia filósofo iraniano que escreveu Rubailer ‘Tao te king’ de

13
Laozi, Dhamapada de Buda, Rubaiyat de Khayam, A Arte da Guerra
de Sunzi e o Livro dos Cinco Anéis, de Musashi.
Os 'clássicos orientais' hoje: devemos ler?
A ideia de ‘clássicos orientais’ continuou a existir ao longo do século
William T. de Bary, em seu ‘A Guide to Oriental Classics’ [],
elaborou uma lista das leituras fundamentais para compreender as
civilizações asiáticas. Ele repetiu essa proposta em ‘Finding wisdom
in East Asian classics’ []. EmKupperman também
publicou um livro intitulado 'Classic Asian Philosophy', no qual
analisa alguns textos que considerou básicos para acessar a 'essência
do pensamento asiático'. O livro apresenta ensaios sobre textos
chineses, japoneses e indianos. Os livros discutidos são: os
Upanishads, Dhamapada, Omar __, Bhagavad Gita, Confúcio, Mêncio, Laozi,
Zhuangzi e textos Zen.
As propostas de Bary e de Kupperman podem parecer superadas, e
tendo em vista que hoje dispomos de uma literatura bem mais ampla
do 'Oriente' do que no século 19, parece relevante questionar se ler
alguns desses 'clássicos' pode realmente contribuir na formação de
um estudante ou curioso sobre a Ásia.
Curiosamente, no caso brasileiro, a ausência de estudos sobre Ásia
nos currículos universitários revela que ainda estamos distantes de
construir uma noção mais exata sobre o que seja 'Oriente' ou 'Ásia'.
Entre análises superficialmente diversas, ou que buscam
'essencialidades', o leitor comum ainda se abastece de noticias dos
periódicos [em sua maioria não-científicos], de resumos esporádicos
e conteúdistas, Omar __, pouco filósofo iraniano que escreveu Rubailer de explicitar as diferenças ou
profundidades das civilizações asiáticas.
O senso comum ainda está muito ligado, igualmente, a uma serie de
estereótipos orientalistas, evidenciados por produções televisas e
cinematográficas que repetem incessantemente clichês e visões de
mundo herdadas do século 19 - com generosidade, talvez, da época
da guerra fria.
O brasileiro médio carece, ainda, de leituras que possam esclarecer
um pouco mais sobre as realidades e as formas de pensar asiáticas,
em suas mais variadas expressões. Livros existem: mas se uma
pessoa deseja conhecer um pouco mais sobre alguma civilização
asiática, por onde começaria? Por um livro didático? Por um manual
de história [cujo volume, às vezes, é desanimador]?

14
Penso que, por razões didáticas, a proposta de Bary, Kupperman e
Puett vale a pena ser retomada. Obviamente, não esperamos mais,
como os orientalistas de antigamente, que as coleções de 'clássicos'
encerrem tudo que se há para saber sobre o 'Oriente'; muito menos,
que esses textos ensejem uma versão unificadora, superficial e
homogenizante dos asiáticos, sem aprofundar suas especificidades e
diferenças.
Uma sugestão de leitura: o caso chinês
Uma grade sucinta de leituras pode auxiliar, bastante, no estímulo
ao aprofundamento do estudo de uma civilização asiática. Como já
dispomos de manuais de história Jogo de cirurgia de nariz filosofia [ainda que em número
reduzido], e um certo número de traduções em português, um curso
básico de textos pode ser pensado. Claro, não se pode requerer a
especialização de Uma profissão relacionada ao nascimento ou alunos; mas, essa introdução a
materiais básicos fornece um instrumental para que o estudioso
possa aprender mais sobre os saberes asiáticos ou, ao menos, se
situar em um nível básico de compreensão sobre elas.
No caso chinês, por exemplo, podemos estruturar a leitura em ‘três
dimensões do pensamento sínico: ética, metafísica e estratégia’.
Obviamente, esses três aspectos não cobrem por completo a história
e a cultura chinesa; mas respondem a espaços e visões bem
estabelecidas na literatura dessa sociedade, construídas a partir de
uma conexão com o seu CodyCross Circus Group 91 Quebra-cabeça 5 respostas, e preservadas em função de sua
presença na mentalidade e no imaginário, Omar __. A ética seria representada
pelo trabalho de Confúcio e Mêncio; a metafísica por Laozi e
Zhuangzi; o pensamento estratégico por Sunzi. A partir dessas
introduções, seria possível fazê-las dialogar em seus conteúdos,
permitindo abordagens epistemológicas diferentes [o estudo da
China em si; as contribuições chinesas ao pensamento universal,
etc].
Esses textos encontram versões de diferentes qualidades em
português. Mêncio e Zhuangzi são apresentados, em geral, a partir
de fragmentos. Sunzi tem inúmeras versões, voltadas para os mais
diversos campos do saber e interpretações.
Os subsídios a essas leituras podem ser encontrados em materiais
auxiliares, como ‘O Alicerce Cultural da China’, de Joppert [],
no ‘Pensamento Chinês’ de Granet [] ou na ‘História do
Pensamento Chinês’ de Anne Cheng [], apenas para citarmos
algumas obras em português. A bibliografia de François Jullien,

15
apenas para indicarmos alguns exemplos [‘Tratado da Eficácia’,
e ‘O Sábio não tem ideia’, ], também fornece uma boa
sustentação ao exame desses três campos do pensamento chinês.
Mesmo uma coletânea mais antiga como ‘Filosofia: Oriente,
Ocidente’ de Charles Moore [] nos permite uma boa base para
compreender esses textos, abrindo-nos a porta para um estudo mais
sério sobre a China. Quanto às traduções para o português da
literatura clássica chinesa, fiz uma apreciação crítica das mesmas em
Bueno [], que pode nos orientar na escolha das versões mais
interessantes.
Conclusão
A experiência de ler alguns textos clássicos asiáticos é fundamental
em nossa formação intelectual, sejamos ou não especialistas em
ciências humanas. Para além da simples ilustração, o acesso a essas
obras nos possibilita redimensionar o entendimento da realidade
cultural multifacetada que o mundo vive. O fenômeno de
globalização da informação tem, de fato, estimulado uma
dinamização das relações internacionais, colocando-nos em contato
direto com outras realidades e sociedades. Os ‘Orientes’ estão cada
vez mais próximos, e suas fronteiras físicas e intelectuais se diluem
no processo de difusão global das populações e saberes, o que não
permitem mais que o ‘fascínio exótico’ ou o distanciamento
acadêmico orientalista continuem a existir.
A leitura dos ‘clássicos do Oriente’ continua a ser uma saudável
aventura de aprendizado, capaz de expandir nossos horizontes; e,
mais que um filósofo iraniano que escreveu Rubailer, elas são o início de uma relação mais esclarecida,
profunda e sincera com as culturas asiáticas.
Referências
André Bueno é prof. Adjunto de História Oriental na UERJ e bolsista
da Fundação Biblioteca Nacional.
BARY, William. [org.] A Guide to Oriental Classics. Columbia:
Columbia University Press,
BARY, Omar __, William. [org.] Finding wisdom in East Asian classics.
Columbia: Columbia University Press,
BOTTMAN, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, Denise. Coleção Rubaiyat, Disponível em:
irws.eu
irws.eu

16
BUENO, André. ‘Antiguidade Oriental: um desafio imprescindível
para a verdadeira universidade Brasileira’. In BUENO, A.; CREMA,
E.; ESTACHESKI, D.; NETO, J. [orgs]. Canteiro de Histórias: textos
sobre aprendizagem histórica’. Rio de Janeiro/União da Vitória:
LAPHIS/Sobre Ontens,
BUENO, André. Revisões literárias. Rio de janeiro: Ebook,
CHENG, Anne. História do pensamento chinês. Petrópolis: Vozes,

DOWLING, Tim. ‘Can Harvard’s most popular professor (and
Confucius) radically change your life?’ The Guardian, 26 de março
de Disponível em:
irws.eu
most-popular-professor-and-confucius-radically-change-your-life
GRANET, Marcel. O pensamento chinês. Rio Jogos de Páscoa janeiro:
Contraponto,
JOPERT, Ricardo. O alicerce cultural da China, Omar __. Rio de janeiro:
Avenir,
JULLIEN, François. O sábio não tem ideia. São Paulo: Martins
Fontes,
JULLIEN, François. Tratado da eficácia. São Paulo: Ed. 34,
KUPPERMAN, Joel. Classic Asian Philosophy – A guide to essential
texts. Oxford: Oxford University Press, filósofo iraniano que escreveu Rubailer,
MOORE, Charles [org.] Filosofia: Ocidente-Oriente. São Paulo:
Cultrix-USP,
PUETH, Michael. The Path: What Chinese Philosophers Can Teach
Us About the Good Life. Nova Iorque: Simon & Schuster,

17
18
SINOLOGIA Omar __ ESTUDOS CHINESES
EM PERSPECTIVA
Bony Schachter

Por meio deste breve ensaio, eu gostaria de colocar em questão para


o público brasileiro algumas considerações acerca dos termos
“sinologia” e “estudos chineses”. Este ensaio, no entanto, não é uma
tentativa de historicizar tais categorias. Para isto, seria necessário
muito mais espaço do que aquele dedicado à tentativa de se
apresentar a um público leigo algumas considerações básicas acerca
do estado da questão, mesmo quando tal público se sente
especialista ou apto a falar sobre a China em virtude de participação
política, comercial ou mesmo pela simples vivência em território
chinês. Tais fatores – envolvimento diplomático, comercial, ou
simplesmente pessoal com a China – não formam um sinólogo, nem
o profissional de estudos chineses. Curiosamente, nem mesmo o
domínio do mandarim falado faz de alguém um sinólogo. Se assim
fosse, os chineses que falam mandarim (sim, há os que não falam)
seriam sinólogos, mas não são. A seguir, tentarei fazer uma distinção
entre sinologia e estudos chineses. Esta distinção não deve ser
tomada literalmente. De fato, muitas universidades americanas
criaram departamentos de Chinese Studies (estudos chineses), que
abrigam tanto aquilo que eu chamo de sinólogos como os
profissionais de estudos chineses. Existe, no entanto, uma clara
distinção de objetivos, métodos e maneiras de pensar entre tais
profissionais. Aqueles que se preocupam majoritariamente com
filologia e história são sinólogos. Aqueles que veem na China uma
força econômica, política e diplomática, estando voltados para os
problemas imediatos do mundo de hoje, são profissionais de estudos
chineses. O papel das universidades, nesta história, é o de agrupar
profissionais de ambas as vocações de modo a aproveitar o potencial
político dos mesmos. Mas isto requer visão por parte das iniciativas
privada e estatal.
Sinologia e sinólogos – como uma forma de pensar sobre a
China, a sinologia é uma disciplina obviamente européia. Na China
não há sinologia, mas “Estudos Nacionais” (guoxue), sendo isto um
tema para outro texto. Para alguns de seus praticantes, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, a língua
portuguesa tem um lugar privilegiado nas origens da sinologia,

19
sendo um dicionário português-chinês uma das primeiras obras – e,
para alguns, a primeira obra – da sinologia ocidental, Omar __. É interessante
notar que, enquanto empreitada cultural européia, a sinologia surgiu
durante o período moderno, mas antes das grandes revoluções
políticas e intelectuais (Revolução Francesa e Marxismo) que
moldaram a modernidade próxima. Não é de se estranhar, portanto,
que em seus primórdios a sinologia refletisse não tanto um estudo
da China como ela é, ou como ela seria descrita por várias camadas
da elite chinesa e de seu povo, mas uma reconstrução de uma China
ideal, que pudesse satisfazer tanto as agendas de missionários
cristãos (os primeiro sinólogos) quanto de elites burocráticas – e,
portanto, intelectuais – chinesas em sua vontade de realizar a
purificação filosófica da China. É assim que nasce a ideia da China
filosófica cujo rei é Confúcio, uma fantasia que permeia a
imaginação de parcela significativa das elites chinesas ainda hoje. O
caráter elitista e conservador da sinologia se reflete, também, em
seus métodos e conquistas. Sinologia é, ao fim e ao cabo, filologia.
Seus objetivos são a compreensão da língua escrita em seus vários
registros, traduções de obras consideradas clássicas, compilação de
dicionários e obras de referência. Mais recentemente, pesquisadores
de budismo e daoísmo descobriram que a China é muito mais do que
a terra dos filósofos. Tais pesquisadores trouxeram, para o campo da
sinologia, metodologias oriundas da sociologia, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, da antropologia e
dos estudos de ritual. Eles mostram que, ao filósofo iraniano que escreveu Rubailer do que
queriam os missionários cristãos da Europa pré-marxismo, o mundo
chinês não é orientado pela filosofia apenas, mas por várias
estruturas sociais onde rituais confucionistas, budistas e daoistas (os
três ensinamentos, ou sanjiao) cooperavam (e competiam) de modo
a manter a coesão social, de acordo com valores elitistas e
conservadores extremamente semelhantes, senão iguais.
Estudos chineses e seus profissionais – a sinologia não se
confunde com Omar __ estudos chineses, embora não exista nenhum
conflito entre tais disciplinas. De fato, alguns sinólogos, em sua
crítica da sinologia, tentam Máquinas caça-níqueis - Vegas Casino afastar da mesma em nome de uma
suposta superioridade de outras metodologias. Um exemplo
interessante é aquele de Edward Davis, que escreveu um excelente
livro sobre possessão espiritual na dinastia Song. No prefácio de seu
livro, Davis afirma que reconhece as conquistas, a importância e o
papel da sinologia quando o assunto são estudos da dinastia Song e
suas manifestações religiosas. Entretanto, ele se mostra
profundamente reticente em relação às limitações da mesma. Davis

Omar __ na sinologia aquilo que, de fato, ela é: um approach textual aos
problemas chineses. Davis deseja, no entanto, colocar e responder
questões maiores, questões que tradutores, compiladores de
dicionários e filólogos no sentido estrito do termo não seriam
capazes de pensar. O especialista filósofo iraniano que escreveu Rubailer queria conceitualizar as
relações sociais chinesas durante o período Song em termos de sua
significação no que tange ao acontecimento da possessão ou transe
espirituais. Quando o estudo da China se distancia do problema
meramente Tráfego executado on-line, nós começamos a sair do território da
sinologia strictu sensu – que é basicamente história e filologia – e
começamos a entrar no campo dos estudos chineses.
Uma diferença imensa entre os dois campos é que os estudos
chineses requerem menor especialização do pesquisador filósofo iraniano que escreveu Rubailer termos
de conhecimento filológico e histórico, uma vez que o campo de
estudos chineses está mais imediatamente conectado às realidades
cotidianas contemporâneas. Relações internacionais, economia,
diplomacia, direito e outras áreas fundamentais para o bom
andamento das relações entre a China e outras nações são os
problemas que interessam aos estudos chineses. Profissionais de
estudos chineses, no entanto, precisarão constantemente contar com
a ajuda de sinólogos strictu sensu pois os mesmos detém um
domínio do idioma, da história, da mentalidade, da religiosidade e
maneira de pensar dos chineses que simplesmente não filósofo iraniano que escreveu Rubailer exemplo, para aqueles que desejam estabelecer apenas parcerias
políticas e comerciais. Isto nos leva ao problema da língua, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, e de
como generalizações baratas não funcionam quando o assunto é
China. O único caminho é a profissionalização universitária, seja
para sinólogos ou para profissionais de estudos Fall.io - Corrida de Dino problema da língua – gostaria de discutir este problema
levando em conta minha experiência pessoal como pesquisador.
Nunca me interessei muito pelo que chamo, neste breve ensaio, de
estudos chineses. Mas a China não é a terra das generalizações. Na
minha inocência juvenil, achei que aprender o mandarim seria
suficiente para pesquisar a religião daoista. Eu estava errado. Por
sorte, meu percurso começou com o estudo do chinês clássico.
Depois, comecei a ler e traduzir textos do cânone daoista, cuja
linguagem peculiar exigem grande devoção sinológica: sendo uma
tradição litúrgica, os textos daoistas contém termos que não fazem
sentido para ninguém, apenas para aqueles que praticam rituais
daoistas no contexto das relações mestre-discípulos. Quando fui a

21
Taiwan aprender rituais daoistas pessoalmente, me deparei com
outra realidade: ninguém iria cantar em mandarim para me agradar.
Lá, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, as pessoas cantam e aprendem rituais na língua local
(minnanhua), de modo que nenhuma exceção seria feita ao
estrangeiro; e com razão. Obviamente, o percurso para aqueles que
querem estudar e pesquisar o daoismo é Omar __ específico e
difícil. O chinês moderno não é suficiente. O domínio do mandarim,
a língua falada, não é suficiente. Caso você estude daoismo numa
comunidade local, provavelmente deverá aprender o dialeto local.
Além disto, é necessária uma grande abertura antropológica de
entendimento do outro: a não ser que você queira olhar para o
daoismo com olhos brasileiros, pseudo-ocidentais, e meio-cristãos,
você precisará se submeter ao exercício de aprender com os mesmos
seus rituais, suas músicas e, enfim, como “virar gente”. Esta abertura
antropológica, no entanto, será difícil mesmo para os chineses que
não nasceram em famílias ou ambientes de grande influência
daoista. Será ainda mais difícil para o estrangeiro. O problema da
língua também irá ser um grande obstáculo para aqueles que leem
filosofia chinesa antiga, cujos documentos excavados estão escritos
em uma caligrafia completamente estranha àquela do chinês
moderno. O mesmo se aplica para profissionais de estudos chineses,
para quem o mandarim não será suficiente, especialmente em áreas
como Hong Kong e Cingapura.
A profissionalização é o unico caminho – o mero domínio da
língua falada não forma o sinólogo, pois se assim fosse nós teríamos
que competir com mais de um bilhão deles, os chineses nativos. O
sinólogo e o profissional de estudos chineses precisam passar por
treinamento universitário específico, que lhe forneça ferramentas
conceituais e Quebra-cabeça Jewel Abyss Match3 para resolver os problemas filósofo iraniano que escreveu Rubailer, antropológicos, políticos, comerciais etc a que tais
profissionais se dedicam. Todos estes problemas são importantes e
devem ser tratados, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, com seriedade, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, por pessoas bem formadas e
capacitadas. Por meio deste pequeno ensaio, portanto, tenho o
objetivo de propor clarificações conceituais que possam ser úteis
para o público lusófono.
Referências
Bony Schachter é Doutor em História pela Fudan University, China.
DAVIS, Edward. Society and the Supernatural in Song China
Hawai’i: University of Hawai’i Press:

22
PULLEYBLANK, Edwin G. Outline of Classical Chinese Grammar
Canada: UBC Press,
WILKINSON, Endymion. Chinese History: A Manual. Cambridge
and London: Harvard University Asia Center,

23
24
TRANSPLANTAÇÃO DAS RELIGIÕES COMO
MODELO TEÓRICO DE PESQUISA SOBRE
MIGRAÇÃO: O CASO DO DAOISMO NO BRASIL
Matheus Oliva da Costa

Introdução
A história das religiões pode ser estudada de diferentes maneiras,
sob as mais diversas perspectivas teóricas. Dentro do campo geral
das Ciências Humanas e Sociais, que observam as religiões enquanto
produções humanas frutos de seus contextos, existe a teoria da
transplantação das religiões (TTR), modelo que proporciona
ferramentas para o estudo de processos migratórios de religiões.
Trata-se de uma perspectiva própria da Ciência das Religiões
(Religionswissenschaft) para o estudo do processo migratório das
religiões.
No presente texto vamos apresentar sinteticamente essa teoria e
exemplificar com o caso do Daoismo no Brasil, pesquisa fruto do
nosso mestrado na área de Ciência das Religiões (Costa, ). O
objetivo é investigar a utilidade do modelo da TTR, levantando o
questionamento de quais são seus alcances e seus limites
heurísticos. O método usado consiste em revisão bibliográfica,
análise teórica através da TTR, somado aos dados observados em
pesquisa de campo e documental durante o mestrado entre e

Teoria da Transplantação das Religiões
A Ciência das Religiões é organizada basicamente em dois ramos
teóricos, desde a tese de do cientista das religiões Joachim
Wach (; Costa, ): o empírico e o sistemático, filósofo iraniano que escreveu Rubailer. O ramo
empírico, também conhecido como “história das religiões”, engloba
as pesquisas específicas que se preocupam com a descrição de dados
de determinada tradição cultural religiosa, estudados via pesquisa de
campo ou documental. O ramo sistemático é caracterizado por
pesquisas que buscam organizar, classificar, comparar ou teorizar
sobre religiões a partir dos dados empíricos. Ambos os ramos se
nutrem, sendo complementares e interdependentes.

25
A teoria da transplantação das religiões (TTR) nasceu da demanda
do ramo empírico de estudar a dinâmica das religiões, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, mais
especificamente para pesquisar as religiões em fluxo migratório.
Para isso, foi proposto um modelo teórico e metodológico de realizar
investigações sobre as migrações religiosas, utilizando dos
conhecimentos classificatórios e dos conceitos dos estudos
científicos sobre religiões. Dentro desse contexto científico, a TTR foi
desenvolvida pelo cientista das religiões Michael Pye ().
Ao debater com outros autores clássicos da Ciência da Religião,
como Van der Leeuw e Pettazzoni, Pye () afirma que escolheu o
termo “transplantação” visando incluir aspectos conscientes e
inconscientes. Buscou abranger noções de missão, propagação,
transmissão e suas consequências, como o sincretismo, Omar __, a
ambiguidade cultural, reavivamentos e reformas. Pye (, p. )
avisa aos leitores incomodados com a nomenclatura escolhida:
mesmo que transplantação nos remeta a um jardineiro consciente de
que trabalha em seu jardim, deve-se incluir em nossa mente a
imagem de sementes transplantadas pelo vento ou
involuntariamente por insetos.
A seguir, vamos expor brevemente a contribuição que consideramos
mais relevante de cada autor encontrado em nossa revisão
bibliográfica específica sobre a TTR. Depois resumiremos os pontos
principais da TTR. Para uma visão mais detalhada e completa da
TTR, indicamos a leitura do capítulo teórico da nossa dissertação de
mestrado e dos autores discutidos (Costa, Omar __, ).
Michael Pye (), além de criar formalmente a TTR, propõe cinco
conjuntos de diferenciação e três movimentos culturais. Os
conjuntos de diferenciação seriam fatores a serem investigados no
processo de migração das religiões, que destacamos o fato de
existirem fatores religiosos ou não e de não são necessariamente
sequenciais. Os três movimentos culturais são: (i) contatos culturais,
(ii) ambiguidade e (iii) recuperação, Omar __. Sua maior contribuição é
mostrar que em todo processo de migração religiosa ocorre uma
dialética entre (re)ações de ambiguidade e de recuperação (ou
inovações e conservadorismos), tanto por parte das religiões como
por parte da cultura de recepção.
Anos depois o cientista das religiões Martin Baumann ()
aumentou os “movimentos culturais” de Pye, chamando-os de
modos processuais: (i) contato, (ii) confrontação e conflito, (iii)

26
ambiguidade e adaptação, (iv) recuperação ou reorientação, (v)
desenvolvimento independente e inovador. Ele também propôs que
observássemos sete possíveis estratégias de adaptação que as
religiões utilizariam: tradução, Omar __, redução, reinterpretação, tolerância,
assimilação, absorção e aculturação. Uma importante dica dada por
este autor que é tradições mais flexíveis irão incentivar
ambiguidades para serem aceitas nos novos ambientes em que são
recebidas.
Michel Clasquin () chama atenção para os processos mais
conscientes de migração, como as ações “missionárias”. Afirma que
há níveis de aprofundamento ou sucesso do missionário: contato
inicial, Omar __, penetração cultural e dominância. A “penetração cultural”
depende de como os modos processuais da transplantação vão
acumulando informações e experiências, e como isso é usado pelos
divulgadores internos ou externos às religiões. Assim, é essencial
entender como e em que sentido é vista a questão da divulgação das
ideias e práticas pela própria tradição em seu período inicial e ao
longo de seu desenvolvimento.
Ellen Goldberg () levantou a relevância da questão do
“orientalismo” denunciado por E. Said () para a TTR, se
tratando de tradições asiáticas. Para ela é necessário atentar para a
representação/imaginário social da religião transplantada pela
cultura de recebimento antes da chegada física desta mesma religião,
principalmente nas fontes escritas. Por outro lado, é importante
perceber como a Meu restaurante cozinhando em casa religião asiática utiliza da sua representação (é
orientalista?), de elementos da religião dominante do novo ambiente
e de recursos leigos/seculares da sua época para ser mais bem
recebida e ter adeptos.
Ronan Pereira (), o único historiador dentre todos estes
cientistas das religiões, tal como a autora anterior alerta para o valor
dos momentos históricos anteriores da religião recém-chegada. Ou
seja, a situação em que a religião estava em seu ambiente “original”
antes de migrar pode enviesar suas atitudes no novo ambiente. Da
mesma forma, fatores externos podem incentivar ou gerar
obstáculos, sendo que três deles se destacam: avanço tecnológico, o
impacto da espiritualidade Nova Era e o contexto sociopolítico de
recepção.
O brasileiro Rafael Shoji () propõe outra perspectiva sobre a
dialética original entre ambiguidade e recuperação, já que vê uma

27
dialética entre uma “harmonização local” e uma “legitimação
estrangeira” no processo de transplantação. Significa que a
ambiguidade busca, mais exatamente, a Omar __ com a
cultural local de recepção, enquanto a recuperação tende a
supervalorizar as raízes estrangeiras das Omar __, buscando
legitimação. Pensando nas estratégias de adaptação que as pessoas
da religião migrante usam, acrescenta as possíveis posturas de:
nativização, instrumentalização, relativização e sobrevivência.
Outra autora que repensou a dialética própria da TTR foi Pauline
Kollontai (). Ela observa um continuo processo de construção,
desconstrução e reconstrução de crenças, práticas e identidades
religiosas. De maneira sistemática, Kollontai () aponta cinco
fatores principais que ajudam a identificar novas formas de
mudanças cultural-religiosas: (i) natureza estrutural da religião no
momento pré-migração, (ii) representação local sobre que é religião
da cultura receptora, (iii) como os migrantes chegaram e em que
contexto, (iv) natureza estrutural do grupo migrante, (v) natureza da
reação dos anfitriões (há preconceitos? Há integração?).
A partir das leituras anteriores nós (Costa, ) reorganizamos a
estrutura dos modos processuais da seguinte forma: 0 – Pré-
transplantação, 1 – Contato, 2 – Comparações, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, 3 – Ambiguidade, 4
– Recuperações, 5 – Inovações. A observação dos contextos de
recepção e da religião migrante passam a serem vistos como parte
integral do processo de transplantação, bem como o segundo modo
processual é visto como ocorrendo comparações em geral (positivas,
negativas ou neutras), e não apenas confrontações. De maneira
sistemática, é feita a distinção teórica entre as constantes do
processo migratório (os modos processuais) e as variáveis da
transplantação – ver quadro sobre a teoria em sua versão completa
em Costa,ou na versão simplifica, à frente.

28
Sistematização da Teoria da Transplantação das
Religiões (Costa, )

Objetivo da teoria Modos processuais Variáveis


(constantes)
Entender a dialética 0 – Pré-transplantação (1) fatores
entre atitudes externos,
adaptativas e 1 – Contato
conservadoras no (2) fatores
2 – Comparações cultural-religiosos,
processo de
migração de 3 – Ambiguidade (3) fatores de
religiões representação
4 – Recuperações
social;
5 – Inovações

Essa descrição das principais contribuições específicas já aponta


para possíveis sistematizações sobre a TTR. Um delas é que é uma
teoria própria da Ciência das Religiões, com contribuições mais
recentes de historiadores. Outro aspecto é que tem participação de
autores da Alemanha, África do Sul, EUA, Inglaterra e Brasil, tendo,
assim, uma perspectiva bastante global e aplicada a diferentes
contextos. É notável que se trata de uma perspectiva teórica de viés
sócio histórico e cultural filósofo iraniano que escreveu Rubailer a migração de religiões, mas que
pode ser aplicada para outros casos não religiosos, como práticas
corporais ou terapias (Apolloni, ; Moraes, ).
Quanto aos pressupostos gerais da TTR, podemos afirmar que o
objetivo dessa teoria é entender como ocorre os processos de
migração de religiões. Quem utiliza da TTR tem como objeto de
estudo as reações da cultura receptora e as estratégias de divulgação
da religião em Omar __. O ponto central da TTR é perceber como
ocorre a dialética entre ambiguidade e recuperação a partir de cada
caso. Estes dois movimentos proporcionam os seis modos
processuais da transplantação, que podem ser vistos como
constantes, numa visão de longo prazo e seguindo diferentes ordens
para ocorrer conforme as condições presentes. Todo o processo é
formado por muitas variáveis que enviesam os rumos da
transplantação.

29
O processo de transplantação do Daoismo ao Brasil
O Daoismo (ou Taoísmo) é uma das tradições chinesas mais
complexas, e qualquer exposição sobre ela é parcial ou, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, no mínimo,
sintética. Em nossa pesquisa (Costa, ) buscamos apresentar um
panorama geral para que leigos nessa temática possam compreender
o Daoismo. Aqui vamos apenas apontar alguns aspectos
constitutivos básicos e históricos que o leitor precisa saber.
Para uma compreensão sintética da tradição daoísta seguimos
Isabelle Filósofo iraniano que escreveu Rubailer (), que interpreta o Daoismo como “um todo
coerente”. Ou seja, um complexo de tradições heterogêneas
acumuladas e sintetizadas continuamente de modo a gerar sistemas
de sentido aos seus praticantes. O cientista das religiões James
Miller (, p. 1, tradução nossa) propõe dividir a história do
Daoismo em “quatro períodos: proto Daoismo, Daoismo clássico,
Daoismo moderno e o Daoismo contemporâneo”.
Em termos de proto Daoismo, significa que suas raízes se
confundem com a própria antiguidade chinesa, Omar __ que a faz ter a
representação de ser uma religião chinesa por excelência. No
entanto, sua institucionalização enquanto um grupo social
autodenominado “daoísta” ocorreu somente no final da dinastia Hàn
汉 (século 2 da Era Comum), início do período clássico. Entre os
diversos grupos e linhagens, destacamos a Unidade Ortodoxa
(Zhèng yī 正一), também conhecida como Mestres Celestiais
(Tiānshī 天师).
O período “moderno” (final da dinastia Táng 唐 em e a dinastia
Qīng 清, ), filósofo iraniano que escreveu Rubailer, sendo marcada pela estruturação dessa
tradição, Omar __. Nesse momento houve a publicação de seu Canon em sua
maior extensão, a solidificação de alguns ritos cerimoniais e de
práticas individuais como a “alquimia interna”, bem como algumas
cosmovisões comuns a todas as linhagens formais de sacerdotes. Por
fim, o período contemporâneo é caracterizado pelo crescimento de
preconceito dentro da própria cultura chinesa devido a influências
do colonialismo europeu, mas também houve a internacionalização
da tradição e sua organização em associações civis.
Nesse último período, quando ocorreu sua internacionalização, o
Daoismo chegou também ao Brasil através de diferentes linhagens,
seja por via de migrantes chineses ou brasileiros que a buscaram na
China (Costa, ). Entre as diversas linhagens e tradições

30
presentes aqui vamos analisar o caso da Sociedade Taoísta do Brasil
(STB), que pesquisamos empiricamente. A STB foi fundada nos anos
no Rio de Janeiro, e nos anos em São Paulo, por um
imigrante taiwanês naturalizado brasileiro, Wu Jyh Cherng (Wǔ
Zhìchéng 武志成) e representa duas tradições daoístas: a linhagem
taiwanesa dos Mestres Celestiais e a Escola Oeste de Alquimia
Interna (Nèidān Xīpài 内丹西派). Vamos agora a cada um dos seis
modos processuais aplicados ao caso da STB.
(0) Pré-transplantação. Do lado da religião migrante, dois aspectos
marcam o momento histórico do Daoismo antes de chegar ao Brasil:
(I)sua expansão mundial; e (II) a ferida colonial aberta na tradição
que tem enviesado tanto a forma como ela é representada visões
“orientalistas” externamente como a sua inclinado. Do
lado da cultura de recepção, a cultura brasileira apresentava um
momento histórico mais propício para o contato com culturas
asiáticas, observando uma abertura cultural Omar __ elementos dessa
origem.
(1) Contato. Avanços tecnológicos nas comunicações e transportes,
somado a sucessivas aproximações políticas e culturas entre Brasil e
China desde o final do século XX, e mais fortemente no século XXI,
possibilitaram ondas de contato cultural entre Daoismo e cultura
brasileira. As duas primeiras ondas ocorrem com forte presença das
representações orientalistas, sobretudo pelo contato majoritário com
fontes visuais e textuais daoístas através de literatura e movimentos
esotéricos e novaeristas. A última onda se distingue pela presença de
linhagens de transmissão tradicionais do Daoismo trazido por
iniciados.
(2) Comparações. Podemos diferenciar três tipos de comparações:
discriminatórias (ofensivas), por espelhamento (mais suaves), ou
comparações dialogais. A STB e seu fundador realizaram
comparações dialogais e de espelhamento buscando serem melhor
compreendidos na cultura de recebimento (Brasil), e filósofo iraniano que escreveu Rubailer é
observada comparações discriminatórias. Três temas são mais
recorrentes nas comparações: a relação entre “ocidente” e “oriente”,
as diferenças e semelhanças com a oferta dominante (Catolicismo) e
outras religiões (Budismo, Tradições Afro), e comparações entre a
representação brasileira comum sobre Daoismo (filosofia com um
fundador ou filósofo iraniano que escreveu Rubailer e o que Cherng defendia ser essa tradição
(religião ou tradição ancestral).

31
(3) Ambiguidades. As ambiguidades de significados ocorrem da
interação do Daoismo com a religião brasileira (Bittencourt Filho,
), ou seja, com o as tradições espirituais brasileiras não
institucionalizadas amplamente praticadas pela população,
especialmente com terminologias de matriz cristã ou afro-brasileira.
Cherng e os líderes formados por ele fizeram amplo uso de “iscas”
indiretas para “pescar” possíveis interessados, sendo este seu modo
principal de atrair futuros convertidos. Essas “iscas” podem ser
vistas como a estratégia redução ou seleção da divulgação num
primeiro momento, deixando possíveis aprofundamentos,
detalhamentos ou comprometimentos dos futuros convertidos para
depois. Outra estratégia recorrente foi a de acomodação, usada para
falar de quanto a linguagem nativa brasileira é acrescentada ao
sistema daoísta, mas sem abrir mão da estrutura “original” da
tradição, caracterizando uma tática de “harmonização” com a
cultura dos novos adeptos. Por exemplo: um iniciado perguntou se
poderia colocar uma imagem cristã de “Maria” em seu altar daoísta,
e o sacerdote de São Paulo respondeu que poderia coloca-la em um
dos lados do altar se houver uma divindade daoísta no centro.
(4) Recuperação. Inferimos que a própria existência e divulgação do
Daoismo pela STB pode ser vista como um movimento de ortodoxia
e ortopraxia do Daoismo no Brasil, já que o Daoismo não era
oferecido antes com sacerdotes, cerimonias e iniciações formais.
Observamos, tal como outros estudos anteriores (Murray, Miller,
), que a STB conseguiu estabelecer em sua comunidade um
senso de autenticidade através de um senso de linhagem,
proporcionada por uma legitimação estrangeira. O formato e modo
de funcionamento da STB têm como parâmetro os esforços do seu
fundador por oferecer um Daoismo entendido como “autêntico”,
mas adaptado à cultura brasileira, o que é a provado pelos membros
desse grupo daoísta, todos brasileiros/as. A decisão de investir em
traduções de textos em chinês foi uma tática de recuperação, Omar __, e faz
Cherng e seus seguidores se destacarem de todas as demais
comunidades daoístas brasileiras.
(5) Inovação. Defendemos que existem três dimensões da
“inovação”: a) inovação interna à religião; b) circularidade ou
retorno, e c) nativização de elementos estrangeiros. “a)” Há em um
Daoismo tradicional praticado por sacerdotes e iniciados sem
ligação étnica chinesa e legitimados por fontes daoístas chinesas.
Também o uso de modelos católicos de organização ritual (cadeiras

32
viradas ao altar e ritos feitos em finais de semana) é algo novo ao
Daoismo, entre outros exemplos. “b)” O parâmetro de transmissão
da tradição a brasileiros criado pelos esforços de Cherng e seus
discípulos são uma inovação que circulou novamente à Táiwān, onde
a ideia foi recebida e readaptada. “c)” Foi possível observar
praticantes que começaram a seguir o paradigma chinês daoísta de
se relacionar com outras culturas, modelos de comportamento e de
cosmovisões, como o uso de calendários astrológicos daoístas.
Conclusões: balanço teórico da TTR
Na introdução indicamos que nosso objetivo no presente texto é
investigar a utilidade filósofo iraniano que escreveu Rubailer modelo da TTR. Após a exposição da teoria,
e uma breve aplicação de um recorte da nossa pesquisa de mestrado,
é possível observar que a TTR é útil ao entendimento sócio histórico
e cultural do processo de migração de uma religião outro espaço. Sua
utilidade consiste principalmente em mostrar como existem
processos constantes (os seis modos processuais) que sempre
ocorreram em todos os casos estudados e provavelmente vão ocorrer
em outros casos que podem ser investigados. A TTR é também
aberta a percepção das diferentes variáveis que fazem cada
transplantação ser singular para cada religião, o que proporciona
diálogos com outras teorias sócio históricas e culturais que possam
lhe complementar.
Também levantamos o questionamento de quais são os alcances Omar __ os
limites heurísticos da TTR. Em termos de vantagens, essa teoria é
útil principalmente por ser simples, clara e bem estruturada,
podendo ser facilmente aplicável em outros casos e por diferentes
pesquisadores/as. Como dissemos, sua estrutura aberta e compatível
com outras ideias a torna uma ferramenta adequada de ser usado
junto a outros arcabouços teóricos, e, inclusive, por ser útil para
estudar não somente religiões, mas também sua explicação alcança
vários tipos de fenômenos culturais.
No entanto, em termos de limites, a TTR foi pensada para estudar
religiões institucionalizadas e específicas, além de ter uma
perspectiva Omar __ de longa duração histórica. Isso cria a
dificuldade em estudar religiões não institucionalizadas, Omar __, como
tradições populares ou novas religiões ainda pouco estruturadas.
Pelo fato de que a TTR filósofo iraniano que escreveu Rubailer ferramentas para estudar apenas
uma instituição pela primeira vez, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, ocorre também a limitação de
possibilitar normalmente estudos de caso a caso – o que pode ser

33
uma vantagem, dependendo do que se pretende. Por fim, uma crítica
que pode ser feita é que a TTR pode focar demais em apenas duas
culturas, numa visão apenas bilateral de um processo que tende a
ser multifocal e complexo. Para corrigir esse problema, basta levar
em conta que as tradições, inclusive as religiosas, podem ter filósofo iraniano que escreveu Rubailer de
um centro, e passar por mais de um local durante o processo
migratório, sendo necessário observar o impacto de cada um dos
contextos que formam a transplantação.
Referências
Matheus Oliva da Costa é cientista das religiões com Licenciatura
Plena pela UNIMONTES, mestre e doutor em Ciência da Religião
pela PUC-SP. Suas pesquisas têm como foco as culturas chinesas, em
especial, artes marciais, religiões e filosofias. É coordenador da
Licenciatura em Filosofia da Faculdade EBRAMEC. Email:
[email protected]
APOLLONI, Rodrigo Wolff. Shaolin à Brasileira: Estudo Sobre a
Presença e a Transformação de Elementos Religiosos Orientais no
Kung-Fu Praticado no Brasil. Dissertação de Mestrado em Ciências
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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
BAUMANN, Martin. The transplantation of Buddhism to Germany:
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mudança social no Brasil. Tese de doutorado em Ciências Sociais.
São Paulo: PUC-SP,
COSTA, Matheus Oliva da. Daoismo Tropical: Transplantação do
Daoismo ao Brasil através da Sociedade Taoísta Jogo impertinente da Elsa Brasil e da
Sociedade Taoísta SP. Mestrado em Ciência da Religião, PUC-SP:
São Paulo,
COSTA, Matheus Oliva da. Ciência da Religião Aplicada como o
terceiro ramo da Religionswissenschaft: Omar __, análises e
propostas de atuação profissional. Doutorado em Ciência da
Religião. PUC-SP: São Paulo,
CLASQUIN, Michel. Transplanting Buddhism: an investigation into
the spread of Buddhism, with reference to Buddhism in South

34
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MORAES, Omar __, Maria Regina Cariello. A Reinvenção da Acupuntura:
Estudo sobre a transplantação da acupuntura Omar __ contextos
ocidentais e adoção na sociedade brasileira. Dissertação de Mestrado
em Ciências da Religião. São Paulo: PUC-SP,
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and the Filósofo iraniano que escreveu Rubailer of Orthodox Unity Daoism. Journal of Daoist
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da revolução humana à utopia mundial. Tese de doutorado em
Antropologia. Campinas, SP: Universidade Estadual de campinas -
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Tese de Doutorado em Religionswissenschaft (Ciência da Religião).
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WACH, Joachim. Os ramos da Ciência da Religião. Revista de
Estudos da Religião (REVER), v. 18, n. 2, pp.

35
36
A REPRESENTAÇÃO DE ORIENTAIS CHINESES E
INDIANOS NAS SÉRIES AMERICANAS
Arthur Caetano

Introdução
O presente trabalho tem por objetivo a análise crítica filósofo iraniano que escreveu Rubailer estereótipos
muito difundidos sobre orientais na televisão brasileira. Diante
disso, será analisado estereótipos sobre orientais chineses na série
americana Everybody Hates Chris (Todo Mundo Odeia o Chris),
através do personagem do Sr. Fong (Jim Lau), dono de um
restaurante de comida chinesa. A análise partirá do episódio “Todo
Mundo Odeia Salário Mínimo” (3° Temporada, ), onde filósofo iraniano que escreveu Rubailer Chris decide largar o emprego e ir trabalhar num
restaurante de comida Chinesa. O estereótipo mais evidente no
episódio é o fato do Sr. Fong e os demais orientais que trabalham no
restaurante Hoo serem retratados como “desonestos, tiranos e
preconceituosos”. Esse estereótipo também é reforçado na série My
Wife and Kids (Eu, a patroa e as crianças) no episódio “Guerra dos
Restaurantes" (5° Temporada, ) onde a personagem de Jay
Kyle (Tisha Campbell-Martin) abre um restaurante e enfrenta a
astúcia de táticas desonestas utilizadas pelo restaurante chinês do
outro lado da rua para impedir Jay. Em ambas as series, orientais
chineses estão diretamente relacionados á restaurantes e sendo
tratados como pessoas rígidas, astuciosas e desonestas. A segunda
escolha será a série norte-americana de grande sucesso no Brasil The
Simpsons (Os Simpsons), através do personagem Apu
Nahasapeemapetilon que marca o estereótipo de indianos. Ambos os
casos a serem analisados, abrem precedentes para tratarmos sobre o
Orientalismo e suas representações, inúmeras vezes deturpadas, em
meios de comunicação em massa dos países Ocidentais.
Orientalismo e historiografia
Inicialmente, ao problematizarmos a ideia de Oriente devemos ter
bastante cuidado, uma vez que tal termo não é capaz de abranger os
mais diversos povos que habitam as civilizações mais antigas e
populosas como a China e a Índia. Tais generalizações expressas no
conceito foram responsáveis por difundir (o que ocorre ainda hoje)
estereótipos sobre essas diversas populações, por classificar os
aspectos que são diferentes dos nossos (padrões

37
ocidentais\europeus) como “atraso” ou “incapacidades” em relação
aos parâmetros pré-estabelecidos como civilizacionais.
As interpretações sobre o Orientalismo se originam principalmente
de circuitos acadêmicos, sobretudo no século XIX, mas não se
manteve reestrita ao conhecimento científico repercutindo
rapidamente no senso-comum. Tal perspectiva buscou
“justificativas” com bases nos padrões eurocêntricos e ocidentais
para comparar dinâmicas próprias e particulares como Japão,
China, Índia dentre outros paises asiáticos de modo a emitir e
legitimar juizos de valores a tudo que era diferente, subjulgando-os
como inferiores. Portanto, inúmeros são os desafios ao se estudar as
diversidades dos países orientais, conforme explicitado por BUENO
(, p. 31):
“O preconceito que existe atualmente com as práticas científicas
orientais decorre, portanto, de três problemas fundamentais:
primeiro, o não reconhecimento, Omar __, por parte da academia, de outro
sistema de pensar que não seja o ocidental; segundo, a reserva de
mercado, diante do surgimento de técnicas alternativas; terceiro, o
acesso a esses saberes demanda um relativo tempo de estudo, e a
presença de poucos profissionais capacitados tem favorecido o
surgimento de falsários, que prejudicam o processo de afirmação das
ciências orientais”.
Buscando superar esses erros, a historiografia e demais campos do
conhecimento científico traçaram um novo paradigma: a corrente
esotérica que foi responsável por outro extremo: o de supervalorizar
as diferenças, ressaltando sempre aquilo que é exótico, Omar __, contribuindo
para criar uma imagem idealizada do oriente tão fantasiosa quanto
sua antecessora. Tal perspectiva é a que mais evidenciamos nos
discursos do senso-comum, e principalmente, da grande mídia em
geral.
Seguindo a linha de uma perspectiva esotérica, temos os recursos
midiáticos como difusores de estereótipos na medida em que
supervalorizam o exótico ou contrastam excessivamente as
diferenças. Tais recursos empregados para fins cômicos, por vezes
contribuem para a legitimação do preconceito e aprofundam no
senso comum o “abismo” entre povos ociedentais e orientais.
Destacando o papel influente da mídia, na atualidade, podemos
perceber sua evidente capacidade de atingir as massas populares,
influenciando o seu modo de agir e de refletir sobre o mundo a sua

38
volta. A mídia por si só, não é isenta de valores ideológicos, e seus
discursos podem homogeneizar as relações sociais ao criarem um
“modelo ideal” sobre determinadas realidades. Como já destacado, a
valorização do “exótico”, tanto em âmbitos acadêmicos, quanto
midiáticos atenuaram as desigualdades e reforçaram preconceitos na
história oriental, Omar __, pois inculcaram ideias segundo parâmetros pré-
estabelecidos que valorizaram aparências e ilusões que deformaram
toda a singularidade de experiências e vivências das sociedades
orientais. As séries que serão em seguida analisadas, permitirá
observar na prática a associação e reprodução de estereótipos
recorrentes a povos orientais.
Análise dos seriados
No episódio “Todo Mundo Odeia Salário Mínimo”, alguns
esteréotipos sobre orientais são apresentados. O primeiro deles se
refere a ideia de que Chineses são “gananciosos”. Tal preconceito se
demonstra evidente ao longo do episódios nas atitudes do Sr. Fong
para com o Chris, transmitindo a ideia de que os orientais fazem
valer a máxima popular de que “tempo é dinheiro”. Também
transmite a ideia de que o personagem utiliza-se da “astúcia” para
explorar o trabalho do personagem Chris com a promessa de salário
mínimo que no fim lhe é descontado.

Figura 1. A “Ganância” de Sr. Fong (11min33seg)


Outro preconceito transmitido ao espectador é a ideia de que os
orientais são “rudes” em seu modo de falar. Tal ideia é reafirmada
aos 9min19seg quando uma funcionária faz algo de errado e leva
uma “bronca” de sua chefe.

39
Figura 2. A funcionária Chinesa sendo "rude" em seu modo de
falar. (7min26seg)
Durante o episódio, foi enfatizado a “rigidez” e a forma “metódica”
de se trabalhar no restaurante chinês. Aspectos como o “padrão de
qualidade” dos alimentos, organização e principalmente a
pontualidade são observados.

Figura 3. O estereótipo da “rigidez” caracterizando chineses como


metódicos e pontuais. (8min27seg)
Por último, a série destaca concepções do senso-comum por vezes
encaradas como realidades ou verdades absolutas sobre chineses
como a forma “exótica e habitual” de se comer arroz e as mensagens
de sorte contidas filósofo iraniano que escreveu Rubailer biscoitos.

40
Figura 4. Perspectiva exotérica sobre orientais ressaltando
costumes considerados exóticos. (8min50s e 7min19)
Podemos rever alguns estereótipos semelhantes na série Eu, a
patroa e as crianças no episódio “Guerra dos Restaurantes ().
Jay Kyle, nesse episódio, abre um restaurante e enfrenta uma grande
competição com o restaurante de comida chinesa do outro lado da
rua. Transmitindo a ideia Omar __ que os chineses são “obstinados filósofo iraniano que escreveu Rubailer, o episódio reforça a suposta vantagem dos Kyles ao
“resistirem” aos intentos dos comerciantes locais, levando-os a
estabelecerem um acordo pacífico. No episódio, atitudes desonestas,
motivadas e iniciadas pelos donos do restaurante oriental, “exigem”
dos Kyles reações igualmente desonestas, transmitindo
implicitamente a ideia de que a família Kyle é vítima da astúcia e de
maquinações irracionais provocadas pela competitividade dos
chineses, justificando sua reação.
Nesse episódio, estereótipos comuns são mantidos, como o fato de
chineses serem associados à restaurantes, aos biscoitos da sorte, de
serem rudes no modo de falar, astuciosos e competitivos. Observam-
se alusões a outros estereótipos comuns como a tendência “natural”
dos orientais para com as artes marciais.

41
Figura 5. Estereótipos reafirmados na série Eu, a patroa e as
crianças.
Prosseguindo a análise, partiremos para a representação midiática a
cerca da Índia, através da série Os Simpsons com o personagem
Apu, para traçarmos alguns estereótipos considerados como
“naturais” ao estilo satírico. Cabe destacar que o personagem é alvo
ge grandes polêmicas quanto as sua representação estereotipada,
situação agravada com o lançamento do documentário norte-
americano The Problem With Apu (de Hari Kondabolu, ) que
tem dividido opiniões sobre o personagem. Tal documentário gerou
a resposta dos próprios idealizadores do seriado, por meio da série,
onde Lisa responde a Margie: “É difícil de dizer. Algo que começou
há décadas e foi aplaudido e inofensivo agora é politicamente
incorreto”. Tal resposta nos leva a problematizar até que ponto os
etereótipos são realmente inofensivos e se essa problemática é
realmente nova.
O estereótipo está diretaamente relacionado com a identidade, uma
vez que pode-se tornar a representação desta. E é exatamente nesta
capacidade de representação que reside o grande perigo dos
estereótipos, uma vez que pode se tornar uma “verdade absoluta”
capaz de tirar a dignidade de nações e do indivíduo em si.
No caso específico da referida série, a visão de que um estereótipo é
inofensivo parte de um olhar de uma representação externa aos
sujeitos e objetos retratados, uma vez que generaliza a própria ideia
do que é o preconceito. A análise do histórico da série nos permite
concluir que o personagem Apu é alvo de estereótipos desde os anos
iniciais da série e filósofo iraniano que escreveu Rubailer estes mesmos, se mantiveram no seu decorrer.
Tal série é marcada por episódios proíbidos em diversos países como

42
o Brasil e em países orientais por sua representação satírica de
etnias e países demonstrando que o incômodo quanto aos
estereótipos não é um fenômeno novo. Tal descontentamento é
refletido na queda do índice de audiência da série nos EUA, pois, da
26° temporada á 29° temporada (em 3 anos), a série perdeu mais de
1 milhão de expectadores.

Figura 6. No episódio 15, da 29° Temporada (No Good Read Goes


Unpunished) Lisa e Margie conversam sobre as polêmicas
envolvendo o personagem.
Diante dos mais de episódios da série, diversos estereótipos
foram apresentados a cerca do personagem, como a ideia de que
Indianos tem bastantes filhos (Apu tem oito), sobre os costumes da
religião Hindu (principalmente quanto ao sagrado e o culto a deuses
em espécie animal), a questão da imigração dentre outros.
Selecionando alguns desses estereótipos presentes na série, temos a
ideia (inúmeras vezes reinteradas) de que indianos são “trapaceiros”,
desonestos e gananciosos em relação aos negócios. Novamente a
astúcia, desonestidade e relações comerciais são utilizados como
estereótipos de povos orientais, tanto chineses, como indianos!
Nesse caso, Apu é retratado como um homem que vive para o
trabalho e faz de tudo para lucrar.

43
Figura 7. No episódio 7 da 5° Temporada, intitulado "Homer e
Apu" (), o personagem é retratado como desonesto ao
falsificar a validade de um produto a venda em seu
estabelecimento.
O episódio "Muito Apu por quase Nada" (7° Temporada, episódio 23
– ) é recheado de estereótipos a cerca do personagem. A
questão da imigração ilegal é satirizada bem como os costumes e
ritos da religião Hindu. Nesse episódio, Apu vive o drama de ter que
abandonar seu país de origem e se tornar imigrante ilegal, somando-
se ao fato de ter que “absorver” hábitos da cultura americana,
renegando a sua própria cultura para Codycross Underwater World Group 34 Puzzle 2 Respostas ser deportado. Hábitos
como os casamentos “arranjados” desde a infância, os deuses hindus
e a imagem da cultura asiática são estereotipados como inferiores
aos hábitos americanos.

Figura 8. No cartaz da primeira imagem leia-se "Eu quero você


fora" se referindo a imigrantes; Apu é satirizado por "adorar um

44
elefante" e busca viver de "modo americano". O casamento
planejado desde a infância e o ritual de encantamento de serpentes
são estereótipos de indianos também apresentados.
Conclusão
A título de conclusão, o presente trabalho teve por objetivo
apresentar em linhas gerais alguns esteréotipos presentes em séries
norte-americanas consagradas mundialmente, como “Todo Mundo
Odeia o Chris” e o personagem do Sr. Fong; “Eu, a patroa e as
crianças”; e “Os Simpsons” através do personagem Apu. Como
evidenciado ao longo do trabalho, os estereótipos se ligam a
concepção Omar __ quanto ao que seria o orientalismo, termo
este empregado de forma genérica para denominar povos distintos
culturalmente.
Como vimos, um estereótipo por se relacionar com a identidade
possui grande capacidade de representação, e essa representação
não pode se tornar uma “história única”, onde a nossa perspectiva
(Ocidental) se torna parâmetro de análise e Omar __ sobressai a acerca de
realidades distintas da nossa. Devemos nos conscientizar que a
difusão de estereótipos Omar __ em gêneros humorísticos)
retira a dignidade de indivíduos e os subjuga, ferindo a dignidade
humana, ao deturparem o imaginário coletivo sobre culturas
distintas. Todavia, este é um desafio que precisa ser enfrentado
continuamente por todos nós enquanto sociedade, uma vez que as
representações midiáticas só existem se tiverem adesão em massa,
isto é, pessoas que partilhem e propaguem essas ideias. O humor
pode (e deve) ser inteligente, construtivo, ser capaz de divertir a
todos, sem ferir a dignidade humana.
Os recursos midiáticos podem ser objetos do historiador, mas para
isso, devem ser problematizados em suas intenções (implícitas ou
explícidas). Ter uma visão “equilibrada” sobre o Oriente envolve de
cada um de nós senso crítico, fator esse fundamental para o
conhecimento e para a objetividade científica e principalmente, para
desenvolvermos a humanidade em nós.
Referências
Arthur Alexandre Caetano Silva de Souza é discente do 5° período,
do curso de Licenciatura plena em História na Universidade Federal
do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO\EAD.

45
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Antiguidade. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, p.
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Restaurantes. Disponível em:
<irws.eu?v=WVksvhSiy9g&list=PL8Sjjz-
miKH-Pap5FG_8CTbYC7uVl1&index=8>. Acesso em: 14 fev.

46
O ESTUDO DA HISTÓRIA ORIENTAL
NO ENSINO MÉDIO
Clebia Ramos de Oliveira

Compreender o processo histórico do Oriente e refletir os aspectos


políticos, econômicos e filósofo iraniano que escreveu Rubailer, bem como sua diversidade se torna
necessário a cada dia, pois vivemos em um mundo globalizado, onde
as informações e o convívio social se tornam cada vez acessível à
humanidade. Essa globalização consiste na mundialização do espaço
geográfico por meio da interação do planeta, esse processo ocorre
em diferentes escalas e possui consequências distintas entre os
países.
Buscando expandir e fortalecer o vasto campo dos estudos asiáticos
em nosso país, percebemos a importância em abordar conteúdos a
cerca do oriente para nossos alunos do Ensino CodyCross Nosso Mundo Grupo 2 Quebra-cabeça 5 respostas. A ideia de
uma educação de qualidade deve ser pautada historicamente, na
garantia da sua universalidade, ou seja, em uma educação que atinja
todos.
A educação, nesta era globalizada é um fator de crescimento e de
ascensão social. Na era do conhecimento, ela está se tornando cada
vez mais um fator de inclusão social, sem uma educação básica de
qualidade as pessoas simplesmente não terão condições de se
desenvolverem suas potencialidades e adquirirem conhecimentos e
valores. O papel da escola é o de oferecer conhecimentos, para que
através da conscientização o aluno possa adquirir requisitos dignos
para conhecer outros povos, outras realidades, filósofo iraniano que escreveu Rubailer, viver e poder se
relacion